Mais de cinco décadas após o assassinato de Araceli Cabrera Crespo, o caso da menina de 8 anos morta em Vitória, em 1973, ganhou novo desdobramento internacional. O Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) apresentou denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA), pedindo a responsabilização do Estado brasileiro por falhas e omissões durante a investigação do crime e pela ausência de reparação à família da vítima.
Para dar início à tramitação do caso, a Comissão Interamericana solicitou documentos relacionados ao processo judicial e uma manifestação formal da família autorizando o seguimento da denúncia. Segundo o advogado Carlos Nicodemos, integrante do MNDH e membro do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, os familiares concordaram com o andamento da ação internacional.
Parte dos autos do processo foi localizada pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) e será entregue oficialmente na próxima segunda-feira (18), data escolhida por marcar o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, criado em memória de Araceli. O irmão dela, Carlos Cabrera Crespo, participará da agenda de forma remota.
Em nota, o TJES afirma que a entrega ocorrerá em agenda reservada, seguindo protocolos legais de confidencialidade.
“A entrega dos autos do referido processo será realizada em agenda reservada, observadas as disposições da Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011) e da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 13.709/2018), mediante assinatura de termo de compromisso e confidencialidade pelos destinatários do material”, informa o tribunal.
Segundo Nicodemos, a denúncia sustenta que o Estado brasileiro falhou na garantia de proteção judicial à vítima e à família, além de não ter assegurado investigação e responsabilização adequadas diante da gravidade do caso.
Saiba quais são os pedidos apresentados à Comissão
Relembre o caso
Araceli Cabrera Crespo tinha 8 anos quando desapareceu após sair da escola, em Vitória, em 18 de maio de 1973. Dias depois, o corpo da menina foi encontrado em uma área de mata da Capital.
O caso ganhou repercussão nacional e passou a ser considerado um dos crimes mais emblemáticos do Espírito Santo. As investigações apontaram suspeitas contra jovens ligados a famílias influentes do Estado.
O processo foi marcado por denúncias de tráfico de influência, mortes de testemunhas e sucessivas reviravoltas judiciais. Em 1980, dois acusados chegaram a ser condenados em primeira instância. Posteriormente, porém, a sentença foi anulada e os réus acabaram absolvidos por falta de provas.
Na denúncia apresentada à Comissão Interamericana, o MNDH afirma que, apesar da quantidade de provas e depoimentos reunidos ao longo das investigações, o caso permaneceu sem solução definitiva, consolidando na sociedade uma sensação de impunidade.
O documento também destaca os impactos causados à família de Araceli ao longo das décadas. Segundo relatos anexados, o irmão da menina afirma que a família “se desfez” após o crime. A mãe retornou para a Bolívia, os pais se separaram e a sensação de injustiça permaneceu entre os familiares.
Em memória de Araceli, o Congresso Nacional instituiu o 18 de Maio como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.